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HISTÓRIA DA DERMATOLOGIA GAÚCHA

    O primeiro dermatologista a exercer sua especialidade no estado foi o Dr. Ernst von Bassewitz, natural de Mecklemburgo e diplomado em 1890 pela Universidade de Berlim. Emigrou para o Brasil em 1892, fixando-se primeiramente em São Paulo e transferindo-se em 1894 para o Rio Grande do Sul, onde exerceu a medicina em diversas e distantes localidades, tais como Santa Vitória do Palmar (na região do litoral) e Alegrete (na região da Campanha).

                     Interessou-se especialmente pela hanseníase (descrição de caso clínico e proposta de possível via de contágio em artigo publicado em 1905 no Deutscher Mediziniscer Wochenschift); publicou em 1927 nos Anais Sul-Riograndense de Medicina relatório sobre “A Questão da Lepra no Rio Grande do Sul”; investigou a incidência dessa enfermidade sobre os colonos alemães e seus descendentes.

    A Faculdade de Medicina de Porto Alegre, criada em 1898, teve seu primeiro professor de Dermatologia e Sifiligrafia o Dr. Modesto José de Souza, como consta da primeira relação de professores da então Faculdade de Medicina e Pharmacia de Porto Alegre, publicada em 1900 pelo jornal “A Federação”. Posteriormente (em 1905), era lente de Clínica Dermatológica e Sifiligráfica o Dr. Rodolpho Machado Masson. Em seqüência, por concurso, tornou-se catedrático desta disciplina o Dr. Ulisses de Nonohay, o qual exercia conjuntamente o cargo de Inspetor Federal de Lepra e Doenças Venéreas. Tendo chefiado o serviço médico da Coluna Revolucionária Gaúcha na revolução de 1930, transferiu residência para a cidade do Rio de Janeiro, onde recebeu de Getúlio Vargas a titularidade de um cartório como recompensa por seus serviços prestados ao movimento revolucionário. Com seu licenciamento, assumiu como professor titular interino o Dr. Carlos Leite Pereira da Silva que havia sido nomeado, por concurso, professor substituto da disciplina.

    Em 1942 criou-se na Faculdade de Medicina de Porto Alegre o Curso Equiparado de Clínica Dermatológica e Sifiligráfica, regido pelo Dr. José Gerbase, natural de Maceió (AL), discípulo do professor Ramos e Silva, diplomado no Rio de Janeiro em 1936 e que tinha se transferido em 1938 para o Rio Grande do Sul para trabalhar no Serviço Anti-Venéreo das Fronteiras, criado naquele ano pelo diretor do Departamento Estadual de Saúde, o sanitarista Dr. Bonifácio da Costa.

    Em 1946 integrou-se na então cadeira de Dermatologia e Sifilografia da Faculdade de Medicina de Porto Alegre o Dr. Clovis Bopp (cabe mencionar que esta cadeira e o curso equiparado funcionavam simultânea e separadamente na mesma faculdade, existindo séria rivalidade entre ambos serviços).

   O Dr. Bopp reorganizou e revitalizou um serviço letárgico e anquilosado, galgando sempre por concurso todos os degraus da carreira universitária: auxiliar de ensino em 1952, livre-docente em 1954 (defendendo a tese “Poroqueratose de Mibelli”) e finalmente catedrático em 1959, com a tese “Cromoblastomitose – contribuição para seu estudo”).

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Em 1992, assumiu, igualmente por concurso, como titular de Dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o professor Dr. Lucio Bakos.

Os serviços estaduais de saúde pública (o antigo Departamento Estadual de Saúde e sua sucessora, a Secretaria Estadual da Saúde e Meio Ambiente) também desempenharam papel de grande importância no desenvolvimento da especialidade no Estado, especialmente no que se referia à hanseníase.

    Em 1923 o Dr. Sarmento Barata apresentou tese versando sobre – O Diagnóstico Laboratorial da Lepra e sua Distribuição no Rio Grande do Sul – e em 1933 Jandyr Maya Faillace publicou – “Do Conceito Atual da Profilaxia da Lepra”

     Em 1938, tendo o tenente-coronel Oswaldo Cordeiro de Farias sido nomeado para interventor no estado, convidou este o sanitarista Dr. Bonifacio da Costa para reorganizar os serviços estaduais de saúde, tendo o mesmo criado o Serviço Anti-Venéreo das Fronteiras e o Núcleo de Profilaxia da Lepra, atraindo jovens dermatologistas do centro do país para trabalharem nessas divisões recém criadas. Enriqueceu-se a dermatologia gaúcha então com a chegada dos Drs. José Gerbase (já mencionado), José Pessoa-Mendes (que chegou a docente-livre por concurso da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, transferindo-se posteriormente para São Paulo, onde assumiu a chefia do serviço de dermatologia do Hospital dos Servidores do Estado) e Antonio Harry Pacheco, bem como estimulou-se a especialidade no interior, destacando-se em Uruguaiana o Dr. Dardo Menezes, natural daquela cidade fronteiriça, mas diplomado em 1936 na Faculdade de Medicina de Niterói, onde fez sua formação dermatológica com o Prof. Dr. Parreiras Horta.

Em 1940 diplomou-se pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre o Dr. Enio Candiota de Campos, o qual fez sua especialização com o Dr. Hugo Pinto Ribeiro, o qual, embora não  desempenhando nenhum cargo universitário, chefiava a enfermaria de dermatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, tendo publicado diversos artigos versando sobre o  granuloma venéreo e micologia médica, tendo descrito um dermatófito designado pelo Prof. Dr. Parreiras Horta, em sua homenagem, como Trichosporon ribeiroi.

Seu discípulo, o Dr.Enio Campos, integrou, logo após a sua graduação, o serviço de Dermatologia do Departamento Estadual de Saúde, manifestando especial interesse pela paracoccidioidomicose, enfermidade que, em 1960, foi tema de sua tese de concurso para livre-docência da cadeira de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul “Micose de Lutz (Blastomicose Sulamericana).

Quando da criação da Faculdade Católica de Medicina (atual Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre), em 1960, o Dr. Ênio Campos assumiu a chefia da cadeira de Dermatologia da referida escola médica, bem como posteriormente a chefia da mesma disciplina nas também novas Faculdades de Medicina das cidades do Rio Grande e Caxias do Sul. Desempenhou também o cargo de chefe do Serviço de Profilaxia da Lepra da Secretaria Estadual de Saúde. Sua brilhante e profícua atividade foi precoce e tragicamente cerceada por um acidente automobilístico em 1974, quando se dirigia à cidade de Caxias do Sul, para lecionar naquela faculdade.

Caberia ainda mencionar, o Dr.Armin Niemeyer, diplomado em 1920 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, com especialização em Berlim e Paris. Em 1952, foi editado o único tratado da especialidade no Rio Grande do Sul “Dermatologia Prática”(Sulamericana).

Em 1970, a aconteceu a reorganização dos serviços de dermatologia da Secretaria Estadual da Saúde, sob a chefia do Dr. César Bernardi, criando-se o Serviço de Dermatologia Sanitária. Este veio a tornar-se um serviço de referência da OPAS e OMS em hanseníase, doenças sexualmente transmissíveis e, posteriormente, a SIDA. Destacou-se o mesmo pela adoção da informatização para o controle da hanseníase, programas audiovisuais de educação e prevenção em DST e SIDA e investigação terapêutica nas enfermidades acima mencionadas.

(Monografia publicada pelo Dr. Antonio Carlos Bastos Gomes

através da Associação Médica do Rio Grande do Sul-1992)